Carla Moraes

São Paulo, São Francisco, ladeiras e bicicletas

Diariamente ouvimos críticas às ciclovias na capital paulista e uma é bem comum: “São Paulo não é plana, não dá para andar de bicicleta… é cada absurdo, ciclovias nas ladeiras”. Obviamente são argumentos rasos de quem não pedala e que não conhece outras cidades com incentivos à bicicleta e pensando nisso fiz uma viagem recente à cidade das ladeiras e bicicletas, São Francisco, nos Estados Unidos.

Em pleno início de inverno, muito chuvoso, lá estava eu de capacete na mão, procurando uma bicicleta para conhecer a cidade. Aluguei uma por um preço um pouco salgado, 16 dólares por dia, valor promocional para quem estava hospedada do Hostel que eu estava, porém turistas desavisados pagam até 40 dólares por dia por uma simples Montain bike de 21 marchas.

Foram mais de 60Km entre pedaladas e pequenas caminhadas e passeios por dois dias, conhecendo quase todos os pontos turísticos de São Francisco e até a bela cidade da Salsalito. É visível o estímulo para pedalar, presença de ciclofaixas e ciclovias por vários cantos da cidade, educação no trânsito e muitas ladeiras, mas muitas subidas e descidas mesmo, estilo pedalar em Perdizes ou Vila Madalena o dia todo e algumas poucas áreas planas próximas à costa. Então se está pensando em conhecer São Francisco de bike, prepare as canelas.

E como tem bicicleta lá! Todo mundo tem: morador de rua, mocinho hipster, senhorinha elegante, senhorzinho de chapéu cowboy, adolescente descolado, rapaz de moicano… Fiquei encantada com essa diversidade e tentando entender como a bicicleta se encaixava no contexto daquela cidade.

Fuçando pela internet encontrei esse depoimento: “ Cristiano, brasileiro de Juiz de Fora-MG, e que já morava em São Francisco há bastante tempo.  Disse que havia vendido o carro e desistido de dirigir em São Francisco.  O trânsito lá andava muito ruim, insuportável e manter um carro na cidade estava ficando muito caro: garagem, combustível, estacionamento, trânsito, multas…  Sim, multas.  A reação do poder público ao excesso de veículos em São Francisco, segundo o Cristiano, foi o aperto da fiscalização e a diminuição a níveis negativos da tolerância às infrações de trânsito.  Ele mesmo vendera seu carro depois de somar trezentos dólares de multas em uma única semana.  Mesmo que ele não fosse um bom motorista, eu saí dali convencido de que andar de carro em São Francisco havia se tornado uma aventura financeira perigosa – bem diferente de 20 anos antes, quando eu estive lá pela primeira vez e era fácil e barato encontrar vagas pela cidade” (Fonte: https://ocachambinaoeaqui.wordpress.com/2012/07/20/de-bicicleta-em-sao-francisco/)

Alguma similaridade com São Paulo? Pois é, críticas em relação à redução de velocidades na capital e radares são feitas diariamente, como se fosse exclusividade da capital, quando isso já acontece há anos e em muitas outras cidades da região metropolitana, como Santo André, que é muito comentada também.

E sobre as ladeiras de São Paulo, o plano da prefeitura de São Paulo e CET é priorizar os trajetos mais planos para implantação de vias para bicicleta, mas nem sempre é possível, visto a complexidade da metrópole e mais variadas formar de relevo. É um equivoco dizer que a maior cidade brasileira não tem potencial de aumentar o número de deslocamentos por meio da bicicleta por conta das muitas subidas e São Francisco é um excelente exemplo que incentivar a bicicleta pode dar certo.

Andar de bicicleta é uma mudança de cultura, de hábito. Não é porque as ciclovias e ciclofaixas estão sendo construídas que imediatamente todos passarão a utilizá-las. Com o passar do tempo as pessoas vão perceber as vantagens e que o transporte motorizado é muito caro e pouco eficiente, vamos ter um pouco mais de paciência e veremos o resultado disso tudo no futuro, principalmente para as próximas gerações.

Os ciclistas aparecerão quando se sentirem seguros para pedalar sem o risco de serem atropelados, sem ônibus “fungando” na traseira, justamente a função que as ciclovias cumprem. Em todo o mundo, o aumento do número de ciclistas veio depois da implementação das ciclovias e ciclofaixas; não antes. O que está ficando inviável nas grandes cidades é priorizar o transporte individual automotivo.

Considerando-se que aproximadamente 30% dos deslocamentos de carro em SP são em distâncias inferiores a 5 km, vejo que isso é totalmente viável e estamos caminhando a longos passos. Trajetos de 10, 15, 20km na capital paulista são muito mais eficientes de bicicleta e aos poucos o corpo se acostuma e a transpiração diminui, seu ritmo é mais constante e a gente ganha saúde.

São Francisco teve um histórico bem interessante, após a construção de ciclovias e ciclofaixas na cidade, cerca de 200km, os deslocamentos diários feitos com bicicletas chegaram a 20%, em 6 anos o aumento de ciclistas foi de 71% e São Francisco foi eleita pela revista americana Bicycling a 6º melhor cidade para a prática do mundo. Mais informações em: http://www.smartgrowthamerica.org/documents/cs/impl/ca-sanfrancisco-2012report.pdf

A garantia de sucesso está na integração com todo o sistema de transporte público, o que ainda não acontece em São Paulo. Em regiões centrais da São Francisco há apenas uma faixa para carros, ciclovias e muito transporte público, porém o custo é bem salgado, uma viagem de Caltrain custa 8 dólares. Em São Francisco, além de racks para bicicletas em ônibus, é possível entrar no metrô e trem a qualquer hora do dia. Poder levar a bike no trem, no ônibus ou no metrô e depois completar o trecho na magrela é realmente uma forma de utilizar os modais à nosso favor, que podemos fazer hoje apenas com bicicletas dobráveis. Em toda a região da Baía de São Francisco se pode fazer todo o trajeto de bicicleta facilmente, assim como o centro expandido de São Paulo e alguns bairros, falta realmente esta “integração” com outros modais.

Em São Francisco é notar que eles também “pintam o chão” e nem sempre é regular, tem buracos, tem bueiro e tem ciclofaixa em pavimento de péssima qualidade, mas no geral as “verdinhas” nas áreas centrais são bem conservadas, ao se afastar das áreas centrais e nos bairros a qualidade deixa a desejar, porém a estrutura existe e é bem utilizada.

Se for à São Francisco não deixe de fazer o tradicional passeio de bicicleta até Salsalito, passando pela Golden Gate. Se preferir, a volta pode ser de balsa, passando bem pertinho da Ilha de Alcatraz. E aproveite também as “ruas abertas às pessoas”, no Golden Gate parque e arredores aos domingos as ruas são fechadas aos carros, lá também tem o belíssimo parque Japonês e a Academia de Ciências da Califórnia, que é incrível… E também faça o tour gratuito no City Hall e saiba mais sobre os momentos históricos que a cidade passou, os terremotos e visitas ilustres, guiados por senhorinhas muito simpáticas. 

Carla Moraes

Meu nome é Carla, sou geóloga e pesquisadora. Nasci em São Paulo onde vivo até hoje. Tenho imenso amor pela cidade, sua diversidade e pluralidade me encantam, sua grandiosidade me fascina. A bicicleta faz parte da minha vida desde o início de 2014, quando fiz um passeio pela ciclofaixa de lazer.Desde então não larguei mais: uso para ir e voltar do trabalho, para viagens, passeios…. Para mim a felicidade veio a duas rodas e tenho certeza que a bike jamais sairá da minha vida, porque é como se o vento no rosto que sinto todos os dias me fizesse ver o mundo com outros olhos!

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